Reportagem: Edson Souza
Especial: Semana Internacional de Vela de Ilhabela
Em 13 meses e uma semana de navegação, seguindo os ventos e as rotas tradicionais da navegação oceânica, o velejador Aleixo Belov completou uma volta ao mundo em solitário. Trata-se do primeiro brasileiro a realizar o feito sozinho, resultado de um projeto concebido ao longo de mais de dez anos e concretizado a partir de 1977, com a construção do veleiro Três Marias, de 35 pés, no quintal de sua residência, no bairro Quinta do Lázaro, em Salvador (BA).
No dia 16 de março de 1980, Aleixo deixou Salvador com destino ao Canal do Panamá. À época, desligou-se de um cargo de superintendente de produção na Construtora Mendes Júnior, onde atuava na construção de plataformas de concreto protendido para exploração e armazenamento de petróleo no mar. Sem balsa de salvamento, por limitações financeiras, iniciou a travessia com o objetivo de alcançar o oceano Pacífico. Em experiências anteriores, como tripulante em barcos de terceiros, as tentativas haviam sido interrompidas por desistência dos proprietários. Desta vez, navegando em embarcação própria, a decisão era definitiva.
Sobre o significado da viagem, Aleixo registrou:
“A aventura, o despojamento, a coragem de trocar a segurança, pelo menos do momento, para realizar dos sonhos mais arcaicos – conhecer o mundo, novas terras, e sozinho – é uma decisão lenta, que quando tomada não tem volta. Nem preciso, nem vocabulário para exprimir tudo que significou.”
E acrescentou:
“É uma experiência que não tem preço, não consigo explicar, preciso de novas palavras. Minha vida não mudou tanto, mas minha visão de mundo é outra. À medida que a gente vai conhecendo outras terras, outras pessoas, ampliando os horizontes, e também ficando sozinho no mar tantos e tantos dias, de repente você se sente vivo, rico. Há tanta ideia na cabeça, que você se apaixona pela própria vida. É como se eu estivesse vivendo a minha vida e um romance que também é a minha própria vida.”
Ao longo da viagem, foram seis meses e meio em navegação e cinco meses e meio em terra. O roteiro incluiu Salvador, Natal, Trinidad, Aruba, travessia do Canal do Panamá, Ilhas Galápagos, Taiti, Nova Caledônia, norte da Austrália, Bali (Indonésia), travessia do oceano Índico — cerca de 6 mil milhas em 59 dias — Cidade do Cabo e, por fim, Rio de Janeiro, onde foi recepcionado com banda de música e recebeu diploma da Marinha do Brasil.
Durante todo o percurso, não houve registros de desespero ou perda de controle da embarcação. As dificuldades enfrentadas foram superadas por meio de preparo técnico e planejamento prévio, resultado de anos de estudo de rotas, ventos, cartas náuticas e condições meteorológicas.
Sobre a dependência do vento como fonte principal de deslocamento, Aleixo observou:
“O mundo é muito grande, como dar a volta nele gastando combustível? Não há dinheiro que pague, enquanto o vento é grátis.”
As maiores dificuldades, segundo o próprio velejador, foram de ordem interna, especialmente durante a decisão de atravessar o oceano Índico em período adverso, sujeito à ocorrência de ciclones. Inicialmente, o plano era permanecer dois anos em viagem, mas o ritmo acelerado da navegação, preocupações financeiras e a necessidade de decisão quanto ao melhor momento para a travessia anteciparam o retorno.
Sobre esse período, relatou:
“Em Bali sofri uma cisão. Eu era várias pessoas ao mesmo tempo, se travou uma batalha dentro de mim, tinha um eu cuidadoso, racional, razoável e outro invencível, que queria voar. (...) E dessa vez ganhou a invencível, o que se arriscava.”
A travessia do oceano Índico foi o período mais longo de isolamento contínuo no mar: 59 dias. Cada manobra exigiu cálculos precisos e acompanhamento constante das condições meteorológicas e dos instrumentos de bordo.
“Quem não tem estrela tem que morrer para dar chance aos outros”, afirmou, ressaltando que não houve encalhes ou danos às velas durante toda a viagem.
Quanto à solidão em alto-mar, Aleixo destacou:
“O mar compensa, sentia tudo no barco, menos solidão. Por incrível que pareça, me sentia mais sozinho em alguns portos.”
Durante a viagem, o veleiro serviu também como espaço de estudo e convivência cultural. A bordo, Aleixo levou livros de autores como Dostoiévski, Gorki, Sartre, Herman Hesse e Trotsky, além de música clássica e brasileira. O Três Marias, projeto do arquiteto naval Robert Bruce, foi construído ao longo de três anos e possuía estrutura completa para navegação de longo curso. Elementos decorativos e funcionais foram produzidos artesanalmente em diferentes locais do trajeto, como Bali.
A experiência representou também um afastamento profissional de aproximadamente 15 meses, precedido de planejamento financeiro para garantir recursos à viagem e suporte à família.
“Cheguei numa fase da vida em que não podia mais perder tempo, trabalhando e ganhando dinheiro não bastava, precisava realizar o meu sonho”, afirmou Aleixo, então com 37 anos.
Foram realizadas 16 paradas ao longo do percurso, com média de dez dias em cada local, possibilitando contato direto com diferentes culturas e modos de vida. Algumas experiências marcaram especialmente o navegante, como a passagem pelas Ilhas Galápagos, a travessia do Pacífico, a chegada ao Taiti e a vivência em ilhas onde o dinheiro não tinha valor de troca.
Ao final, Aleixo definiu a viagem não apenas como uma aventura, mas como um processo de aprendizado contínuo:
“Mais do que uma aventura, considero minha volta ao mundo uma técnica, consequência de uma vontade de aprender.”
E concluiu:
“Em paz consigo mesmo, ninguém sente solidão.”















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