Reportagem: Edson Souza
Colaborou: Enio Rafael de Souza e Maria Aparecida dos Santos Souza
Mais uma janela do tempo se abre devagar, como aquelas portas de aço que rangiam ao amanhecer, nos levando para a Rua Bahia, na Barra Velha dos anos de 1993 — ali, pertinho do PEII e da Paróquia Nossa Senhora Aparecida — onde vivia o velho Mercado “Marambaia”.
Antes mesmo do sol esquentar a terra batida da rua, já dava pra sentir o cheiro do café passado na hora vindo de alguma casa vizinha... No mercado, a madeira antiga das prateleiras e aquele leve perfume adocicado que vinha dos potes de bala e dos doces guardados nos vidros de tampa metálica. Era um cheiro que não se explicava — só se reconhecia.
No balcão de atendimento, firme como parte da própria história do lugar, estava a Sônia, com a velha caixa registradora que fazia “tec-tec” a cada compra, marcando não só os valores, mas o ritmo da vida simples dali. O mercado abria cedinho, e a clientela já se juntava na porta — gente com pressa e sem pressa ao mesmo tempo — esperando o pão e o leite Serramar (Tipo B).
Não tinha padaria integrada, então chegar cedo era quase um ritual. Quem demorava corria o risco de ficar sem o pãozinho francês, que era entregue a certa quantidade na loja que o revendia… mas sempre tinha o pão sovado, mais caro, é verdade, porém salvava o café da manhã de muita gente.
E no meio das prateleiras, entre latas, sacos e garrafas, o freezer e as tubainas de casco retornável — geladinhas, com aquele vidro grosso suado por fora. Abrir uma era um acontecimento: o “tlec” da tampinha saltando, o cheiro doce escapando e o primeiro gole que parecia mais saboroso do que qualquer refrigerante de hoje. Depois, claro… o casco voltava, porque ali nada se desperdiçava.
Nas memórias caiçaras de dona Jacinta Maria de Jesus (in memoriam): — sempre pedia a um dos meus netos pra ir buscar o leite na ‘venda’… eu já punhava na chaleira e fervia pra não perder. Às vezes esquecia a panela no fogo… aí já viu, derramava tudo, virava aquela meleca no fogão… e ainda ficava a nata grossa por cima do que sobrava.
E quando o leite azedava… não era perda, era transformação. Virava doce nas mãos das avós — receita simples, de olhar e de paciência. Doce de leite azedo, ou até aquele velho doce de abóbora, escuro, brilhante, cortado em pedaços, guardado em compotas… doce de roça, doce de memória.
Com o tempo, o prédio mudou de mãos. Vieram os irmãos Luiz e Laerte, e o nome passou a ser “Mini Mercado Santo Antônio”. O mundo lá fora também mudava — em 1994, o Cruzeiro se despedia e o Real chegava — mas ali dentro, muita coisa ainda parecia resistir ao tempo.
Naquele murinho da fachada, depois das partidas no Campo da Creche (hoje PEII), se reunia a turma. Risadas soltas, conversa fiada, histórias aumentadas… e a Kaiser sempre gelada passando de mão em mão. Não tinha briga, não tinha pressa — só o fim de tarde caindo devagar.
Na frente, o orelhão — companheiro silencioso de tantas histórias. As fichas deram lugar aos cartões telefônicos, que viraram coleção… mas o frio na espinha continuava o mesmo quando ele tocava. Era quase certo: alguma esposa querendo saber onde o “craque” tinha se metido. E não adiantava fugir — sempre tinha alguém que atendia e entregava.
E no meio desse cenário, vinha o Antônio “Prego”, batendo os pés no chão pra espantar os cachorros de rua que insistiam em marcar território bem na entrada… às vezes acertando até os sacos de carvão. A cena arrancava risada de todo mundo — daquelas que doem a barriga.
Não é só lembrar… é quase voltar no tempo.
O chão de terra, o cheiro no ar, o barulho da caixa, o gosto da tubaina, o doce de leite, a Maria-mole, o suspiro… e os nomes que ainda ecoam, daqueles que vivem: Baúta, Bolacha, Besta Fera, Tato, Enio, Miguel, Nelson, Walter, Tião, Hélio, Evaldo, Heleno, Luizinho (Feio), Fernando...
… e também daqueles que se foram, mas que o tempo nunca consegue levar embora da mente: Nenga, Xique-Xique, Fainha, Careca, Joaquim, Quebra-queixo, Elias Garcia, Flávio e tantos outros… que, mesmo quando a memória falha por um instante, eles seguem vivos — quietinhos — guardados naquele lugar onde o tempo não passa.















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