Pesquisa por Edson Souza - Tratamento fotográfico: Giliard Miguel
O campismo organizado começou a ganhar força no litoral paulista a partir de 1968, quando medidas estaduais passaram a estabelecer regras para disciplinar a prática de acampamento nas praias, restringindo o chamado “campismo selvagem”. Posteriormente, o Decreto Estadual nº 52.388, de 13 de fevereiro de 1970, proibiu o acampamento irregular e também a realização de churrascos nas praias.
A nova legislação levou os municípios do litoral a organizar e fiscalizar seus territórios diante do crescimento do turismo. Em Ilhabela, a resposta veio rapidamente. Em 19 de junho de 1970, a Câmara Municipal aprovou a Lei Municipal nº 3, autorizando a criação de parques destinados ao acampamento e ao entretenimento turístico.
Foi nesse contexto que surgiu o Camping Ilhabela, empreendimento que se tornaria uma referência na história local. A cidade vivia uma forte expansão do movimento turístico, impulsionada também pela regularização do transporte de passageiros pelas balsas. Atento a essa nova realidade, o engenheiro Caio Barbosa Tinoco tomou a iniciativa de criar uma estrutura organizada e adequada para receber os turistas que chegavam a Ilhabela.
Na década de 1970, Tinoco buscou a colaboração do Camping Clube do Brasil (CCB) para estruturar e organizar o empreendimento instalado na propriedade de seu pai “Fazenda Cuiabá”. O camping passou a seguir os padrões adotados pela entidade e as normas internacionais da Fédération Internationale de Camping, Caravanning et Autocaravaning (FICC).
O pioneirismo do campismo organizado no Brasil, entretanto, antecede a experiência de Ilhabela. Entre os primeiros empreendimentos do gênero estão o Camping de Cabo Frio (RJ) e o Camping do Clube dos 500 (SP), inaugurados pelo próprio Camping Clube do Brasil pouco depois da fundação da entidade, em 1966.
Em Ilhabela, porém, a iniciativa de Caio Tinoco representou a implantação de um camping particular, planejado e integrado oficialmente à rede do CCB, tornando-se um marco para o desenvolvimento do campismo no município.
Localizado no bairro do Perequê, na Rua Benedito Rodrigues da Silva, o Camping Ilhabela ocupava uma área superior a 30 mil metros quadrados e tinha capacidade para aproximadamente 200 barracas. A estrutura oferecia banheiros, tanques, chuveiros, cantina-bar e uma ampla área gramada. As tarifas seguiam os valores praticados pelos demais acampamentos integrados à rede do CCB.
Na época, o pernoite custava Cr$ 2 por pessoa, com isenção para crianças de até 10 anos. O almoço, que podia incluir peixe ou churrasco, era cobrado à razão de Cr$ 5.
O espaço rapidamente se tornou um dos pontos de concentração de turistas durante os períodos de maior movimento. Na Semana Santa de 1971, por exemplo, foram registradas mais de 50 barracas instaladas no camping. No Carnaval de 1972, o empreendimento chegou a receber cerca de 700 pessoas.
O sucesso da iniciativa também chamou a atenção da imprensa. O Camping Ilhabela ganhou projeção fora do município e foi citado em veículos de circulação nacional e regional, entre eles Jornal do Brasil, A Tribuna, Jornal da Orla, Diário da Noite e Revista Manchete, contribuindo para divulgar Ilhabela como destino turístico e para consolidar o campismo como uma das formas de hospedagem utilizadas pelos visitantes da época.
Em 1980, o espaço foi reurbanizado e agora ocupava uma área com 60 mil metros quadrados, com capacidade para 250 barracas e 50 trailers. Desta vez, veiculado com o nome de “Camping Clube de Ilhabela”.
Filho de Antônio Barbosa Tinoco (chefe jurídico da Caixa Econômica de São Paulo) e Carmem Nardozzi Barbosa, Caio Barbosa Tinoco, além de engenheiro e empreendedor, também exerceu o cargo de vereador em Ilhabela. Sua atuação ficou registrada na história do município não apenas pela participação na vida pública, mas também pela iniciativa que ajudou a estruturar o campismo organizado na cidade.
Caio Barbosa Tinoco faleceu em 27 de janeiro de 1992, aos 62 anos. O Camping Ilhabela permanece como parte importante da memória do período em que o turismo começava a transformar definitivamente a paisagem e a economia do Perequê e de todo o município.
Em tempo...
- — A Lei Municipal nº 3, de 19 de junho de 1970, foi posteriormente revogada pela Lei Municipal nº 153, de 30 de dezembro de 1982.
- — Atualização da legislação local: Ao longo dos anos, Ilhabela passou a atualizar e reforçar as normas relacionadas à atividade turística, à preservação ambiental e à circulação de veículos de recreação.
- — Entre os instrumentos legais mais recentes estão a Lei Municipal nº 547/2007, que dispõe sobre taxas e questões relacionadas à preservação ambiental (TPA). Ressaltamos que essa redação foi alterada pela Lei Municipal nº 693/2009, que acrescentou dispositivo no código tributário municipal.
- — Sobre o Decreto Municipal nº 8.468/2021, ele estabelece regras para a entrada de veículos de recreação, como motorhomes e trailers, condicionando o acesso à comprovação de reserva em camping ou estabelecimento hoteleiro devidamente autorizado.












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