Trabalho realizado por Edson Souza e Giliard Miguel
Especial: Fazenda de Café em Ilhabela
Um ponto sensível nesta caminhada foi quando atingimos essa área agrícola com rochas empilhadas sem polimento. Segundo os informantes locais, possivelmente essas rochas empilhadas ao chão sinalizariam antigos sepultamentos e as estruturas maiores seriam vestígios estruturais da extinta fazenda.
Essa história contada pelos locais é fascinante e toca diretamente no passado colonial de Ilhabela. O arquipélago foi, de fato, um pólo produtor de café no século XIX — sustentado pela mão de obra de pessoas escravizadas e seus descendentes africanos — e o tráfico de pessoas continuou forte na região de forma clandestina mesmo após a sua proibição legal.
No entanto, analisando friamente o cenário sob a ótica da arqueologia histórica e da engenharia rural antiga, a resposta mais provável para esses amontoados de pedras costuma ser outra, embora o contexto de escravização ainda esteja 100% presente neles.
1.
Muros de Divisa, Contenção ou "Taipas de Pedra"
O alinhamento que vemos de forma bem nítida, e nas estruturas sobrepostas de encaixe sem argamassa (chamadas de pedra seca), aponta fortemente para estruturas de arrimo, terraço ou antigos muros de divisa... Vamos refletir:
Limpeza do terreno: Para plantar café nas encostas íngremes de Ilhabela, era necessário retirar o excesso de pedras do solo. Os trabalhadores escravizados faziam essa limpeza e, com as próprias pedras retiradas, construíam esses muros para delimitar caminhos, cercar animais ou dividir propriedades.
Contenção de encostas (Terraceamento): Como o terreno de Ilhabela é muito inclinado, os cafezais sofriam com a erosão das chuvas. Esses amontoados organizados em linhas serviam para segurar a terra, criando "degraus" (terraços) que protegiam o solo e as plantas.
2. Sobre a teoria do cemitério? Ela é impossível?
Não é totalmente impossível, mas exige cautela. Em algumas fazendas antigas do Sudeste, existem registros de cemitérios de escravizados situados em áreas periféricas da propriedade, muitas vezes sinalizados com marcações rústicas de pedra (como montículos individuais chamados túmulos de assentamento).
Porém, para que esses amontoados fossem validados como um cemitério, eles precisariam apresentar um padrão bem específico:
Montículos individuais dispostos paralelamente e espaçados de forma regular (geralmente orientados no sentido leste-oeste por tradições religiosas).
O que vemos parece mais uma estrutura contínua e linear (um muro colapsado ou uma borda de caminho) do que sepulturas individuais isoladas. O que se nota é o acúmulo disperso de rochas cobertas pela matéria orgânica da floresta regenerada.
A afirmação dos locais de que a área era uma fazenda de café está correta, e o fato de que essas pedras foram empilhadas por braços escravizados também é historicamente exato — praticamente toda a infraestrutura de pedra nas matas de Ilhabela (muros, canais de água, engenhos) foi erguida por eles.
Contudo, funcionalmente falando, o que vimos e fotografamos, com quase toda a certeza, os resquícios das estruturas agrícolas da própria fazenda (muros de arrimo, caminhos ou taipas de contenção) que foram engolidos de volta pela Mata Atlântica ao longo do último século.



















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