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22.1.26

O “Castelinho” em Caraguatatuba (SP)

 Reportagem: Edson Souza // Colaborou: Cassiano Barbosa

NOTA AO LEITOR: - Por se tratar de imóvel em estado de abandono e potencial criadouro do mosquito Aedes aegypti, a entrada foi realizada por agentes da Superintendência de Controle de Endemias (SUCEN), no cumprimento de suas atribuições legais de saúde pública. com o objetivo de identificar e eliminar possíveis focos do mosquito transmissor da dengue. Este material tem finalidade informativa e histórica e não deve ser interpretado como convite ou incentivo à entrada no imóvel retratado. O texto a seguir busca documentar a história, a paisagem e os conflitos urbanos associados ao imóvel, sem promover qualquer prática irregular ou exposição a riscos.

Localizado no bairro Barranco Alto, em Caraguatatuba (SP), o imóvel popularmente conhecido como “Castelinho” constitui um dos exemplos mais emblemáticos de construções inacabadas que, ao longo do tempo, passam a integrar a paisagem urbana e o imaginário coletivo do município.

Edificado predominantemente em pedra, com volumetria e características arquitetônicas singulares — destoantes do padrão construtivo predominante em seu entorno —, o edifício desperta curiosidade e suscita questionamentos acerca de sua origem, finalidade e destino. Sua presença marcante no território confere-lhe um papel simbólico que ultrapassa a materialidade da obra inconclusa.

De acordo com relatos de moradores antigos e informações transmitidas oralmente ao longo das últimas décadas, a construção teria sido iniciada por volta de 1990, integrando um projeto de maior porte, possivelmente vinculado a atividades náuticas, como a implantação de uma marina. Posteriormente, o empreendimento teria sido reconfigurado para atender a usos recreativos associados ao Rio Juqueriquerê, localizado aos fundos do terreno. Entre as hipóteses levantadas, menciona-se a previsão de uma colônia de férias, com infraestrutura de lazer, incluindo piscina e restaurante. 

A análise da edificação revela adaptações estruturais ao longo do tempo, evidenciadas pelo uso complementar de blocos e tijolos em determinadas áreas, contrastando com a construção original em pedra. Essas intervenções sugerem tentativas de adequação do espaço a novas finalidades, que, contudo, não avançaram além das fases iniciais de implantação.

Ainda segundo essas narrativas, o projeto teria sido embargado por órgãos competentes em meados dos anos 2000, em razão de sua localização em área ambientalmente sensível. O imóvel encontra-se nas proximidades imediatas das margens do Rio Juqueriquerê, inserido em território caracterizado como Área de Preservação Permanente (APP), conforme estabelecido pela legislação ambiental vigente e registrado no Plano Diretor de Caraguatatuba, com informações disponíveis para consulta no Geoportal municipal.

A legislação ambiental brasileira impõe restrições rigorosas às intervenções em faixas marginais de cursos d’água, com o objetivo de proteger ecossistemas frágeis, prevenir processos de degradação ambiental e assegurar o equilíbrio hídrico, paisagístico e ecológico. Nesse contexto, a interrupção das obras resultou na permanência de uma estrutura inacabada que, com o passar dos anos, passou a ser conhecida popularmente como “Castelinho”, consolidando-se como um marco visual e simbólico da região.

Relatos indicam ainda que, além da edificação principal, existia no terreno uma residência ocupada por responsáveis pela manutenção da propriedade. Posteriormente, foi solicitada a desocupação do local e após a saída dos moradores, a casa foi demolida, supostamente como medida preventiva contra ocupações irregulares.

Mais do que uma obra abandonada, o Castelinho materializa as transformações urbanas de Caraguatatuba e explicita os conflitos recorrentes entre expansão imobiliária, interesses privados, preservação ambiental e memória territorial. Seu entorno insere-se em uma área de reconhecida relevância histórica para o município, vinculada ao desenvolvimento do vale do Rio Juqueriquerê e às antigas propriedades rurais e empreendimentos agrícolas que, ao longo do século XX, desempenharam papel fundamental na economia local.

Esse contexto amplia o valor histórico e cultural do local, mesmo que a edificação jamais tenha cumprido plenamente a função para a qual foi idealizada. Atualmente, o Castelinho permanece como um testemunho silencioso de um projeto interrompido e de um período marcado por intensos processos de ocupação e transformação do solo no litoral norte paulista.

Sua presença convida à reflexão sobre planejamento urbano, responsabilidade socioambiental e a importância do registro histórico como instrumento de compreensão da cidade e de suas paisagens. Resgatar e documentar a trajetória desse imóvel significa, portanto, contribuir para a preservação da memória urbana de Caraguatatuba, valorizando não apenas os grandes marcos oficialmente reconhecidos, mas também os espaços inacabados que, ao longo do tempo, passaram a contar suas próprias histórias.

O ‘Castelinho’ e a hipótese de vínculo

com a Fazenda dos Ingleses

Circulam, no imaginário local, interpretações segundo as quais a edificação conhecida como “Castelinho” teria pertencido aos chamados “ingleses” associados à antiga Fazenda dos Ingleses, em Caraguatatuba. Contudo, uma análise histórica e cronológica mais rigorosa permite descartar essa hipótese.

A Fazenda dos Ingleses teve sua implantação iniciada em 1927 pela Lancashire General Investment Company, empresa de capital britânico responsável por um amplo empreendimento agrícola no município. A fazenda constituiu um dos mais expressivos projetos rurais da primeira metade do século XX em Caraguatatuba, exercendo influência significativa sobre a economia local e a organização do território à época. 

O encerramento definitivo desse ciclo histórico ocorreu em 18 de março de 1967, quando chuvas intensas atingiram o litoral norte paulista e desencadearam um dos maiores desastres naturais já registrados na região. Uma vasta massa de solo desprendeu-se da Serra do Mar e avançou sobre Caraguatatuba, provocando destruição em larga escala. A avalanche de lama e detritos devastou extensas áreas do município, atingindo diretamente as estruturas da Fazenda dos Ingleses e decretando, de forma trágica e irreversível, o fim do empreendimento.

Em contraste com esse contexto histórico, a edificação conhecida como Castelinho teve sua construção iniciada apenas na década de 1990, portanto, mais de duas décadas após o colapso da Fazenda dos Ingleses e do desastre de 1967. A discrepância temporal entre os dois episódios inviabiliza qualquer associação direta entre o imóvel e o empreendimento britânico.

Dessa forma, embora a hipótese de um vínculo com os ingleses persista em narrativas informais, a análise baseada em dados históricos e cronológicos demonstra que o Castelinho não possui relação material ou histórica com a Fazenda dos Ingleses, devendo ser compreendido como um produto de processos urbanos e econômicos muito posteriores, vinculados à expansão e reconfiguração do território de Caraguatatuba no final do século XX.

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