Por Edson Souza / Especial: Serramar Shopping
Entre 1664 e 1665, o capitão Manuel de Faria Dória fundou
o primeiro núcleo do então chamado Santo Antônio de Caraguatatuba, marco
inicial da ocupação organizada no território que mais tarde daria origem ao
município. Esse pequeno povoado começou a se estruturar em torno de atividades
agrícolas e da vida religiosa, seguindo o padrão das primeiras formações
urbanas do litoral paulista.
Entretanto, em 1693, uma severa epidemia de varíola
devastou a região, vitimando grande parte de seus habitantes. Abalada pela
tragédia e pela falta de condições sanitárias, a população remanescente dispersou-se
para localidades vizinhas, principalmente Ubatuba e São Sebastião. Esse
episódio ficou registrado na historiografia como “a vila que desertou”, pois o
núcleo praticamente desapareceu, restando apenas uma pequena capela dedicada a Santo
Antônio, símbolo da persistência religiosa e cultural da comunidade.
Naquele período, as terras onde se localizava o povoado
faziam parte do distrito da Vila de São Sebastião, elevada à categoria de vila
em 1636. Ao longo do período colonial, São Sebastião e a vizinha Ilhabela
experimentaram um ciclo de grande prosperidade econômica. A região abrigava
diversos engenhos de açúcar e aguardente distribuídos por quase toda a faixa
litorânea, com produção direcionada tanto à metrópole portuguesa quanto ao Rio
de Janeiro, então um importante polo comercial.
Esse cenário de desenvolvimento regional contrasta com o
abandono temporário de Caraguatatuba, cuja reconstrução e reorganização só
ocorreriam décadas depois, acompanhando o avanço da colonização, do comércio
marítimo e da própria integração do litoral norte ao restante da Capitania de
São Paulo.
Se não houvesse ocorrido a intervenção do governo, São
Sebastião tinha potencial para se consolidar como um dos portos comerciais mais
relevantes do Brasil colonial. A localização estratégica, o intenso movimento
de embarcações e a produção regional fortaleciam essa perspectiva. Contudo,
documentos preservados no Arquivo do Estado de São Paulo revelam que uma
portaria de 1789, assinada pelo então governador Bernardo José Maria de Lorena,
determinava:
"(…) não saia de hoje em diante embarcação alguma
carregada de efeitos do país, sem que primeiramente venha tocar no porto de
Santos."
Essa medida centralizadora afetou profundamente o
dinamismo econômico das cidades do litoral norte paulista — Ilhabela, São
Sebastião, Caraguatatuba e Ubatuba — criando um período de retração comercial e
desestímulo ao desenvolvimento local. Com a obrigatoriedade de passagem pelo
porto de Santos, boa parte da atividade marítima que antes circulava naturalmente
pela região foi desviada, provocando um verdadeiro vácuo econômico.
No entanto, o cenário começou a mudar com a chegada da Corte
Portuguesa ao Brasil, em 1808, quando o país tornou-se sede do reino e os
portos foram finalmente abertos ao comércio internacional. Esse novo contexto
promoveu uma transformação radical na economia brasileira e reacendeu o
desenvolvimento das cidades costeiras.
Na coleção “Memória Histórica Sobre São Sebastião”, o
pesquisador Antônio Paulino de Almeida registra que, já em 1829, Caraguatatuba
apresentava sinais concretos de recuperação e crescimento. Nessa fase, o
município produzia 360 arrobas de fumo (aproximadamente cinco toneladas), 80
pipas de aguardente e 52 toneladas de café, indicando o fortalecimento das
atividades agrícolas e a reintegração da cidade à economia regional.
Freguesia (1847)
Vila (1857)
Instalação da Vila
Em março de 1847, Caraguatatuba foi elevada à condição de
freguesia e, posteriormente, em 20 de abril de 1857, alcançou a categoria de vila,
deixando oficialmente de pertencer ao município de São Sebastião. A partir
desse momento, iniciou-se um processo gradual de organização administrativa e
desenvolvimento local.
Na segunda metade do século XIX, importantes mudanças
globais e nacionais impactaram diretamente a economia regional. Em 1845, o
Parlamento Britânico aprovou o Bill Aberdeen, lei que autorizava a repressão ao
tráfico transatlântico de africanos escravizados nas águas do Atlântico Sul.
Décadas mais tarde, em 1888, a Lei Áurea extinguiu definitivamente a escravização
no Brasil.
Essas transformações, somadas ao esgotamento dos cafezais
na região, provocaram uma reestruturação na base produtiva de Caraguatatuba.
Para manter suas atividades agrícolas, os fazendeiros passaram a contratar
colonos livres vindos da Europa, remunerando-os com parte da produção — modelo
que marcou a transição para um novo sistema de trabalho.
No início do século XX, a cidade ainda apresentava
características predominantemente rurais. A população vivia espalhada em
pequenos agrupamentos ao longo da costa e dos vales. Em 1910, Caraguatatuba
registrava 3.562 habitantes e, mesmo em 1927, possuía apenas uma praça central
e algumas poucas ruas, indicando que o processo de urbanização avançava de forma
lenta.
O cenário começou a mudar a partir de 1947, quando
Caraguatatuba passou a ser reconhecida como um destino litorâneo promissor. Seu
vasto patrimônio natural — florestas, rios, montanhas e extensa faixa costeira
— atraiu a atenção de investidores, inclusive estrangeiros, interessados
especialmente na exploração de madeira e em oportunidades de expansão econômica
na região. Esse movimento deu origem às primeiras iniciativas de ocupação
turística e comercial que, mais tarde, contribuiriam para transformar o
município.
Por Edson Souza / Especial: Serramar Shopping